Você colheu mais e o frete cobrou mais caro assim mesmo

Reparou que a colheita foi das boas e mesmo assim tirar o grão da fazenda não ficou mais barato? Pois é, o caminhão continua cobrando caro, quando a época já era de dar folga no preço. Passado o pico de escoamento da primeira safra, o normal seria o frete rodoviário afrouxar. Acontece que ele segue perto do auge de fevereiro e março. O que mantém o caminhão disputado é justamente a fartura, uma safra de soja recorde que apareceu no Boletim Logístico de junho da Conab e ainda vai ganhar reforço da segunda safra: Soja, +8,8 milhões de toneladas sobre o ciclo anterior, ou seja, muito mais grão pra mover. Diesel S-10 no Paraná a R$ 6,38/L, empurrando o custo do caminhoneiro pra cima. Internalização de fertilizante em maio, a menor desde 2022, e El Niño rondando o segundo semestre. Aí está o contrassenso que dói no bolso. O normal seria o fim do pico liberar caminhão e o frete ceder, só que a safra recorde deixou grão demais na fila pra isso acontecer. Mais carga disputando o mesmo eixo segura o preço firme, e o diesel caro não deixa recuar. No fim das contas, o recorde na balança não virou desconto no frete. O grão saiu da lavoura em quantidade, mas cada tonelada a mais que você colheu foi também uma tonelada a mais pra pagar pra transportar.

O trator zero quilômetro vai ter que esperar a conta fechar

Tem produtor que empurra a compra de uma colheitadeira nova com a barriga do mesmo jeito que outros adiam a trocar de um pneu novo, segura enquanto dá. E em 2026 vai segurar ainda mais. A indústria já admite que a venda de máquina agrícola deve cair de 15% a 20% no ano, tombo bem maior que os 8% que se esperava antes, número que a Câmara Setorial da Abimaq crava hoje, depois de pôr o novo Plano Safra na balança. E o mais cruel é que a freada vem mesmo com dinheiro um pouco mais barato na praça. A linha que banca o trator, o Moderfrota, encolheu de R$ 12,5 bilhões para R$ 5,8 bilhões no Plano Safra, ainda que o juro tenha cedido 1 ponto, para 12,5% ao ano. Não adianta, como avalia Pedro Estêvão, da Abimaq, o produtor está com a rentabilidade baixa e, mesmo com crédito em conta, não tira o pé do freio. Antes de decretar a lavoura de braços cruzados, cabe o contraponto. A margem espremida de soja e milho explica o desânimo, mas o próprio setor aposta que linhas como o Finep, com juro de 9,2%, podem amortecer parte do baque. E essa queda parte de uma base que já tinha recuado, ou seja, é menos um abismo novo e mais o segundo ano seguido de vacas magras no pátio da concessionária. No fim, o recado fala direto com o Plano Safra, porque máquina é o primeiro investimento que o produtor risca da lista quando o caixa aperta, e a fila parada na concessionária acaba virando termômetro da confiança do campo. Enquanto a conta da safra não fechar, o trator novo segue no showroom, esperando a rentabilidade dar as caras.

A potência do etanol encara a fatura da alavancagem

Imagina abrir o primeiro balanço depois de renegociar a dívida e ver o vermelho só engordar. Foi o que viveu a Raízen, a joint venture de Cosan e Shell que é potência em açúcar e etanol, ao fechar a safra 2025/26 com prejuízo de R$ 27,1 bilhões, mais de seis vezes o do ciclo anterior, sendo R$ 7,3 bilhões só no último trimestre. Antes de entrar em pânico com o tamanho do buraco, vale separar o que é caneta do que é caixa. Boa parte do rombo veio de R$ 22,5 bilhões em provisões sem efeito caixa e R$ 11,9 bilhões de baixas não recorrentes, fruto da faxina no portfólio. Tanto que o Ebitda reportado despencou 92%, para R$ 1,1 bilhão, enquanto o ajustado, que tira esses efeitos, ficou quase de pé em R$ 11,3 bilhões. A operação não virou pó, mas a fotografia contábil saiu bem feia. O problema é que nem tudo é maquiagem de balanço. A dívida líquida subiu para R$ 58,2 bilhões, quase 70% a mais, e a alavancagem saltou de 3,2 para 5,2 vezes o Ebitda ajustado. É o retrato de quem cresceu na base do empréstimo e foi pego na curva do juro alto. No campo, a moagem caiu 9,8% e a produção de etanol recuou quase 18%, então o caixa operacional também veio mais magro pra socorrer. Por ora, a empresa ganhou um respiro de 180 dias de suspensão dos juros, aquele fôlego pra arrumar a casa. A maior fabricante de bioenergia do país virou aula sobre o preço de crescer alavancado, e, logo depois do novo Plano Safra, acaba dando o tom do risco de crédito que ronda o setor inteiro. Quando o gigante tropeça na dívida, todo mundo na cadeia confere o próprio extrato.

Até os americanos querem o tarifaço no lixo

Virou aquele presente que nem quem deu quer mais. O próprio setor de máquinas dos Estados Unidos foi às audiências pedir o fim do tarifaço, não por bondade com o Brasil, mas pra proteger a própria indústria americana, que também apanha na conta. Quando quem cobra a tarifa começa a torcer contra ela, é sinal de que o tiro saiu pela culatra. O tom, aliás, baixou. A audiência do agro teve menos tensão do que se esperava, com defesa mais técnica e menos embate político, e entraram pedidos de isenção para uma lista bem brasileira, café solúvel, mel, arroz e etanol. Não que o assunto tenha virado brincadeira, o impacto no agronegócio brasileiro pode chegar a US$ 4,2 bilhões. Para o exportador, fica a leitura fria, tarifa que incomoda até o dono da casa tem prazo de validade, mas, enquanto ela vale, quem paga a diferença é o produto que sai do porto brasileiro.

A safra que vem já nasceu mais cara

O produtor ainda nem plantou e a conta da safra 2026/27 já chegou salgada. O Itaú BBA revisou as projeções e vê piora nas margens da agricultura no próximo ciclo, um coquetel de pressões que aparece antes de a semente entrar na terra, com os fosfatados em déficit e o clima incerto. E o adubo é o nó. As importações de fertilizante caíram, com a ureia mais barata de um lado e os fosfatados pressionados do outro, sinal de produtor jogando na defesa. Do lado bom, o banco ainda projeta a carteira de crédito ao agro 10% maior, dinheiro tem, o problema é o custo do que ele compra. E tem a novela dos insumos no Congresso. O Profert, programa de estímulo à produção de fertilizante, deve ser votado nos próximos dias no Senado, o país tentando no grito reduzir a dependência de adubo importado que corrói a margem toda safra. O recado pra quem vai plantar é direto, a margem de 26/27 vai se decidir menos na porteira e mais no preço do adubo, e esse preço, boa parte, vem de fora.

A crise da Raízen assustou, mas o crédito não fugiu

Pode respirar, o susto da Raízen não contaminou o setor. O Itaú BBA cravou que a dificuldade da gigante do etanol é caso isolado e disse manter a confiança no crédito do setor sucroenergético, o recado que o mercado queria ouvir depois de a maior sucroalcooleira do país acender o alerta. Só que aliviar de um lado não apaga o incêndio do outro. Enquanto o crédito segura as pontas, o clima entrou em campo pra atrapalhar, o El Niño, previsto para se manifestar de forma “muito forte”, ameaça a colheita da cana do segundo semestre. Não basta ter cana no pé, precisa de tempo firme pra colher e moer o volume todo, e é justamente isso que a previsão coloca em xeque. Para a usina, o retrato é de dois pesos, o dinheiro ainda está disponível pra quem tem casa organizada, mas a natureza pode cobrar a conta na moagem. O resumo pro setor é esse, crédito é fôlego, mas quem colhe cana ainda depende do humor do tempo, e o tempo, este ano, anda de cara fechada.

O mundo largou o copo de suco

O Brasil vendeu praticamente o mesmo tanto de suco de laranja, e ganhou muito menos por isso. Na safra 2025/26 o volume exportado ficou quase de pé, mas o faturamento despencou 30,4%, de US$ 3,42 bilhões para US$ 2,38 bilhões, mais de um bilhão de dólares que evaporou do bolso do citricultor. O que segurou a queda de não virar tombo tem sotaque conhecido, Estados Unidos e China. Enquanto os fregueses tradicionais recuaram, esses dois abriram a carteira. A Europa, maior compradora, cortou 10,9% em volume e 38% em receita, e o Japão teve o maior baque. Já os EUA cresceram 16,3% e viraram o principal destino, com o share subindo de 40% para 48%, e a China aumentou 26% as compras. O pano de fundo é uma tendência chata de reverter, o consumo global de suco cai cerca de 4% ao ano, entre preço alto, greening e a fama de “muito açúcar”. Para quem vive da laranja, o recado é amargo, quando o freguês antigo some, é o freguês novo que dita o preço, e ele paga menos.

Recorde de carne com os EUA rondando a China

Foi recorde em dose dupla. A exportação de carne bovina no primeiro semestre bateu o maior número da história (+15,5%, segundo a Abiec), e a carne suína acompanhou: US$ 1,859 bilhão de receita, +7,9% sobre o ano passado, também mirando recorde em 2026. Quando duas proteínas estouram a marca na mesma semana, não é sorte de calendário, é a balança comercial mostrando quem paga as contas do país. Só que o brinde tem um convidado de cara fechada. Enquanto o Brasil comemora, a carne bovina dos Estados Unidos ganha vantagem na China justamente porque concorrentes como o Brasil e a Austrália enfrentam restrições por lá. Ou seja: o freguês mais cobiçado do mundo pode trocar de fornecedor enquanto a gente ainda tira a foto do recorde. Some a isso o tarifaço americano rondando os embarques, e o segundo semestre vira jogo em aberto. Para o pecuarista, o recado é animador com asterisco bem grande: a demanda global está aí, mas ela é volúvel, e quem não cuida do acesso ao mercado colhe recorde hoje e fila de espera amanhã.

O El Niño resolveu torrar o café antes da hora

Se você acha que o seu cafezinho anda com gosto de luxo, senta que a bolsa concorda. O café disparou cerca de 15% a 16% em Nova York hoje, num daqueles movimentos que fazem o cafeicultor abrir o sorriso e o consumidor apertar o cinto. O motivo tem nome de novela climática: o El Niño, que voltou a rondar a lavoura e deixou o mercado com o dedo no gatilho. Acontece que parte dessa alta é movimento técnico, aquele em que o preço sobe mais pelo humor da bolsa do que por saca que sumiu de verdade. Café que dispara em dia de clima nervoso também sabe o caminho de volta quando a chuva resolve aparecer. Para quem tem café no pé, é dia de comemorar com moderação. Para quem só toma, fica a lição de sempre: quando o céu fecha lá na lavoura, quem manda no preço da sua xícara é a chuva que não caiu.

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