O adubo do Brasil depende do humor do mundo

Aqui vai um daqueles temas que não aparece na foto bonita da lavoura, mas manda no custo de tudo: fertilizante. Lá fora, Trump suspendeu as tarifas sobre o fertilizante do Marrocos para tentar segurar os custos no campo americano, um lembrete de que insumo virou peça de xadrez geopolítico, movida em Washington e sentida lá no meio de Mato Grosso. Aqui dentro, o problema é mais antigo e mais teimoso: mesmo com planos para reduzir a dependência, a produção nacional de fertilizante recuou, e o Brasil segue comprando lá fora a maior parte do que joga na terra. É uma vulnerabilidade que não dá manchete todo dia, mas aparece redondinha na planilha de custo toda vez que o mundo espirra. Porque depender do adubo dos outros é apostar num barco que não é o seu. Cada reviravolta de tarifa, cada guerra e cada quebra de safra lá fora chega ao produtor brasileiro em forma de conta mais salgada na hora de plantar, e, diferente do preço da soja, esse custo não sobe no telão da bolsa, ele chega quieto, direto na nota do fornecedor. O recado para quem vive da terra é incômodo, mas necessário: enquanto o adubo vier de fora, o custo da sua safra vai ser decidido por gente que nunca pisou na sua fazenda.
O plano bilionário que o calendário do governo emperrou

Anunciar R$ 6 bilhões de investimento é fácil quando o vento sopra a favor, difícil é segurar a data quando a burocracia troca de ideia três vezes. O paranaense Grupo Potencial admitiu que o pacote bilionário para biodiesel, esmagamento de soja e etanol de milho, prometido para 2030, pode escorregar até 2032. O nó, segundo o vice-presidente Carlos Eduardo Hammerschmidt, tem nome e sobrenome: o atraso do B16. Pela Lei do Combustível do Futuro, a mistura de biodiesel no diesel deveria ter subido para 16% em março, mas o governo, conta ele, fez três anúncios e três cancelamentos de reunião no conselho que decide o tema. Sem a mistura maior, sobra tanque e falta comprador, o Brasil tem capacidade para 16 bilhões de litros de biodiesel e produz só 10 bilhões, com o parque industrial girando em banho-maria. O que a empresa segura firme é o passo deste ano, R$ 2 bilhões mantidos, a terceira planta de biodiesel prometida para o início de 2027 e a capacidade indo a 1,7 bilhão de litros anuais. O que cedeu foi a expectativa de caixa: o faturamento, que bateu R$ 12 bilhões em 2025 e mirava R$ 14 bilhões neste ano, agora tenta no máximo “empatar”. Vale o desconto de sempre, a companhia põe a conta no colo do governo e não deixa de ter razão, mas o parque ocioso é do setor inteiro, e aposta bilionária amarrada a uma canetada que não vem é risco que o investidor assina junto. No fim, a régua é política. Enquanto o percentual obrigatório não sai do papel, o cronograma da Potencial vira sanfona, estica de 2030 para 2032 e pode esticar de novo. Usina se constrói com cimento, mas quem liga o motor é o decreto.
A Better Beef viu o copo meio cheio

Na região de Presidente Prudente, uma das maiores produtoras de batata-doce do país, entre 30% e 40% da colheita nasce fora do padrão de prateleira e, em ano de preço baixo, nem sai do chão. A Better Beef olhou pra essa turma desclassificada e enxergou combustível e cocho cheio. O plano roda na Agropecuária Vista Alegre, braço pecuário do grupo e maior confinamento coberto da América Latina, por onde passam 136 mil animais por ano. A meta é processar 36 mil toneladas de batata-doce por ano e tirar dali uns 5 milhões de litros de etanol industrial. O que sobra da destilação vira cerca de 7 mil toneladas anuais de ração com 29% de proteína, direto pro cocho do gado. A usina, no plano original, ia ser de milho, mas o cereal caro da região empurrou o projeto pro tubérculo do vizinho. E a esteira não para na batata. A empresa diz ter transformado em um ano 40 mil toneladas de resíduos industriais em nutrição animal, o equivalente, na régua do GHG Protocol, a 20.537 toneladas de CO₂ poupadas, além de mais de 2 milhões de litros de álcool tirados de levedura recuperada. O próximo passo do Projeto Batata-Doce soma biogás na casa dos 10 mil Nm³ por dia, que vira biometano pra aposentar o diesel dos caminhões. Agora, o alfinete de sempre. Esses números de CO₂ e resíduo saem da régua da própria companhia, um GHG Protocol autodeclarado, sem auditoria de fora citada, e economia circular é a vitrine que release nenhum resiste a polir. Ainda assim, o modelo é engenhoso e cria mercado pra uma batata que antes apodrecia no campo, renda nova pro produtor da região. Selo verde de verdade se pendura com verificação independente. Até lá, a batata feia segue fazendo o trabalho bonito.