O recorde que mingua quando bate na inflação
Até os americanos querem o tarifaço no lixo

Virou aquele presente que nem quem deu quer mais. O próprio setor de máquinas dos Estados Unidos foi às audiências pedir o fim do tarifaço, não por bondade com o Brasil, mas pra proteger a própria indústria americana, que também apanha na conta. Quando quem cobra a tarifa começa a torcer contra ela, é sinal de que o tiro saiu pela culatra. O tom, aliás, baixou. A audiência do agro teve menos tensão do que se esperava, com defesa mais técnica e menos embate político, e entraram pedidos de isenção para uma lista bem brasileira, café solúvel, mel, arroz e etanol. Não que o assunto tenha virado brincadeira, o impacto no agronegócio brasileiro pode chegar a US$ 4,2 bilhões. Para o exportador, fica a leitura fria, tarifa que incomoda até o dono da casa tem prazo de validade, mas, enquanto ela vale, quem paga a diferença é o produto que sai do porto brasileiro.
A safra que vem já nasceu mais cara

O produtor ainda nem plantou e a conta da safra 2026/27 já chegou salgada. O Itaú BBA revisou as projeções e vê piora nas margens da agricultura no próximo ciclo, um coquetel de pressões que aparece antes de a semente entrar na terra, com os fosfatados em déficit e o clima incerto. E o adubo é o nó. As importações de fertilizante caíram, com a ureia mais barata de um lado e os fosfatados pressionados do outro, sinal de produtor jogando na defesa. Do lado bom, o banco ainda projeta a carteira de crédito ao agro 10% maior, dinheiro tem, o problema é o custo do que ele compra. E tem a novela dos insumos no Congresso. O Profert, programa de estímulo à produção de fertilizante, deve ser votado nos próximos dias no Senado, o país tentando no grito reduzir a dependência de adubo importado que corrói a margem toda safra. O recado pra quem vai plantar é direto, a margem de 26/27 vai se decidir menos na porteira e mais no preço do adubo, e esse preço, boa parte, vem de fora.
A crise da Raízen assustou, mas o crédito não fugiu

Pode respirar, o susto da Raízen não contaminou o setor. O Itaú BBA cravou que a dificuldade da gigante do etanol é caso isolado e disse manter a confiança no crédito do setor sucroenergético, o recado que o mercado queria ouvir depois de a maior sucroalcooleira do país acender o alerta. Só que aliviar de um lado não apaga o incêndio do outro. Enquanto o crédito segura as pontas, o clima entrou em campo pra atrapalhar, o El Niño, previsto para se manifestar de forma “muito forte”, ameaça a colheita da cana do segundo semestre. Não basta ter cana no pé, precisa de tempo firme pra colher e moer o volume todo, e é justamente isso que a previsão coloca em xeque. Para a usina, o retrato é de dois pesos, o dinheiro ainda está disponível pra quem tem casa organizada, mas a natureza pode cobrar a conta na moagem. O resumo pro setor é esse, crédito é fôlego, mas quem colhe cana ainda depende do humor do tempo, e o tempo, este ano, anda de cara fechada.
O mundo largou o copo de suco

O Brasil vendeu praticamente o mesmo tanto de suco de laranja, e ganhou muito menos por isso. Na safra 2025/26 o volume exportado ficou quase de pé, mas o faturamento despencou 30,4%, de US$ 3,42 bilhões para US$ 2,38 bilhões, mais de um bilhão de dólares que evaporou do bolso do citricultor. O que segurou a queda de não virar tombo tem sotaque conhecido, Estados Unidos e China. Enquanto os fregueses tradicionais recuaram, esses dois abriram a carteira. A Europa, maior compradora, cortou 10,9% em volume e 38% em receita, e o Japão teve o maior baque. Já os EUA cresceram 16,3% e viraram o principal destino, com o share subindo de 40% para 48%, e a China aumentou 26% as compras. O pano de fundo é uma tendência chata de reverter, o consumo global de suco cai cerca de 4% ao ano, entre preço alto, greening e a fama de “muito açúcar”. Para quem vive da laranja, o recado é amargo, quando o freguês antigo some, é o freguês novo que dita o preço, e ele paga menos.
Recorde de carne com os EUA rondando a China

Foi recorde em dose dupla. A exportação de carne bovina no primeiro semestre bateu o maior número da história (+15,5%, segundo a Abiec), e a carne suína acompanhou: US$ 1,859 bilhão de receita, +7,9% sobre o ano passado, também mirando recorde em 2026. Quando duas proteínas estouram a marca na mesma semana, não é sorte de calendário, é a balança comercial mostrando quem paga as contas do país. Só que o brinde tem um convidado de cara fechada. Enquanto o Brasil comemora, a carne bovina dos Estados Unidos ganha vantagem na China justamente porque concorrentes como o Brasil e a Austrália enfrentam restrições por lá. Ou seja: o freguês mais cobiçado do mundo pode trocar de fornecedor enquanto a gente ainda tira a foto do recorde. Some a isso o tarifaço americano rondando os embarques, e o segundo semestre vira jogo em aberto. Para o pecuarista, o recado é animador com asterisco bem grande: a demanda global está aí, mas ela é volúvel, e quem não cuida do acesso ao mercado colhe recorde hoje e fila de espera amanhã.
O El Niño resolveu torrar o café antes da hora

Se você acha que o seu cafezinho anda com gosto de luxo, senta que a bolsa concorda. O café disparou cerca de 15% a 16% em Nova York hoje, num daqueles movimentos que fazem o cafeicultor abrir o sorriso e o consumidor apertar o cinto. O motivo tem nome de novela climática: o El Niño, que voltou a rondar a lavoura e deixou o mercado com o dedo no gatilho. Acontece que parte dessa alta é movimento técnico, aquele em que o preço sobe mais pelo humor da bolsa do que por saca que sumiu de verdade. Café que dispara em dia de clima nervoso também sabe o caminho de volta quando a chuva resolve aparecer. Para quem tem café no pé, é dia de comemorar com moderação. Para quem só toma, fica a lição de sempre: quando o céu fecha lá na lavoura, quem manda no preço da sua xícara é a chuva que não caiu.
O adubo do Brasil depende do humor do mundo

Aqui vai um daqueles temas que não aparece na foto bonita da lavoura, mas manda no custo de tudo: fertilizante. Lá fora, Trump suspendeu as tarifas sobre o fertilizante do Marrocos para tentar segurar os custos no campo americano, um lembrete de que insumo virou peça de xadrez geopolítico, movida em Washington e sentida lá no meio de Mato Grosso. Aqui dentro, o problema é mais antigo e mais teimoso: mesmo com planos para reduzir a dependência, a produção nacional de fertilizante recuou, e o Brasil segue comprando lá fora a maior parte do que joga na terra. É uma vulnerabilidade que não dá manchete todo dia, mas aparece redondinha na planilha de custo toda vez que o mundo espirra. Porque depender do adubo dos outros é apostar num barco que não é o seu. Cada reviravolta de tarifa, cada guerra e cada quebra de safra lá fora chega ao produtor brasileiro em forma de conta mais salgada na hora de plantar, e, diferente do preço da soja, esse custo não sobe no telão da bolsa, ele chega quieto, direto na nota do fornecedor. O recado para quem vive da terra é incômodo, mas necessário: enquanto o adubo vier de fora, o custo da sua safra vai ser decidido por gente que nunca pisou na sua fazenda.
O plano bilionário que o calendário do governo emperrou

Anunciar R$ 6 bilhões de investimento é fácil quando o vento sopra a favor, difícil é segurar a data quando a burocracia troca de ideia três vezes. O paranaense Grupo Potencial admitiu que o pacote bilionário para biodiesel, esmagamento de soja e etanol de milho, prometido para 2030, pode escorregar até 2032. O nó, segundo o vice-presidente Carlos Eduardo Hammerschmidt, tem nome e sobrenome: o atraso do B16. Pela Lei do Combustível do Futuro, a mistura de biodiesel no diesel deveria ter subido para 16% em março, mas o governo, conta ele, fez três anúncios e três cancelamentos de reunião no conselho que decide o tema. Sem a mistura maior, sobra tanque e falta comprador, o Brasil tem capacidade para 16 bilhões de litros de biodiesel e produz só 10 bilhões, com o parque industrial girando em banho-maria. O que a empresa segura firme é o passo deste ano, R$ 2 bilhões mantidos, a terceira planta de biodiesel prometida para o início de 2027 e a capacidade indo a 1,7 bilhão de litros anuais. O que cedeu foi a expectativa de caixa: o faturamento, que bateu R$ 12 bilhões em 2025 e mirava R$ 14 bilhões neste ano, agora tenta no máximo “empatar”. Vale o desconto de sempre, a companhia põe a conta no colo do governo e não deixa de ter razão, mas o parque ocioso é do setor inteiro, e aposta bilionária amarrada a uma canetada que não vem é risco que o investidor assina junto. No fim, a régua é política. Enquanto o percentual obrigatório não sai do papel, o cronograma da Potencial vira sanfona, estica de 2030 para 2032 e pode esticar de novo. Usina se constrói com cimento, mas quem liga o motor é o decreto.
A Better Beef viu o copo meio cheio

Na região de Presidente Prudente, uma das maiores produtoras de batata-doce do país, entre 30% e 40% da colheita nasce fora do padrão de prateleira e, em ano de preço baixo, nem sai do chão. A Better Beef olhou pra essa turma desclassificada e enxergou combustível e cocho cheio. O plano roda na Agropecuária Vista Alegre, braço pecuário do grupo e maior confinamento coberto da América Latina, por onde passam 136 mil animais por ano. A meta é processar 36 mil toneladas de batata-doce por ano e tirar dali uns 5 milhões de litros de etanol industrial. O que sobra da destilação vira cerca de 7 mil toneladas anuais de ração com 29% de proteína, direto pro cocho do gado. A usina, no plano original, ia ser de milho, mas o cereal caro da região empurrou o projeto pro tubérculo do vizinho. E a esteira não para na batata. A empresa diz ter transformado em um ano 40 mil toneladas de resíduos industriais em nutrição animal, o equivalente, na régua do GHG Protocol, a 20.537 toneladas de CO₂ poupadas, além de mais de 2 milhões de litros de álcool tirados de levedura recuperada. O próximo passo do Projeto Batata-Doce soma biogás na casa dos 10 mil Nm³ por dia, que vira biometano pra aposentar o diesel dos caminhões. Agora, o alfinete de sempre. Esses números de CO₂ e resíduo saem da régua da própria companhia, um GHG Protocol autodeclarado, sem auditoria de fora citada, e economia circular é a vitrine que release nenhum resiste a polir. Ainda assim, o modelo é engenhoso e cria mercado pra uma batata que antes apodrecia no campo, renda nova pro produtor da região. Selo verde de verdade se pendura com verificação independente. Até lá, a batata feia segue fazendo o trabalho bonito.