Você colheu mais e o frete cobrou mais caro assim mesmo

Reparou que a colheita foi das boas e mesmo assim tirar o grão da fazenda não ficou mais barato? Pois é, o caminhão continua cobrando caro, quando a época já era de dar folga no preço. Passado o pico de escoamento da primeira safra, o normal seria o frete rodoviário afrouxar. Acontece que ele segue perto do auge de fevereiro e março. O que mantém o caminhão disputado é justamente a fartura, uma safra de soja recorde que apareceu no Boletim Logístico de junho da Conab e ainda vai ganhar reforço da segunda safra: Soja, +8,8 milhões de toneladas sobre o ciclo anterior, ou seja, muito mais grão pra mover. Diesel S-10 no Paraná a R$ 6,38/L, empurrando o custo do caminhoneiro pra cima. Internalização de fertilizante em maio, a menor desde 2022, e El Niño rondando o segundo semestre. Aí está o contrassenso que dói no bolso. O normal seria o fim do pico liberar caminhão e o frete ceder, só que a safra recorde deixou grão demais na fila pra isso acontecer. Mais carga disputando o mesmo eixo segura o preço firme, e o diesel caro não deixa recuar. No fim das contas, o recorde na balança não virou desconto no frete. O grão saiu da lavoura em quantidade, mas cada tonelada a mais que você colheu foi também uma tonelada a mais pra pagar pra transportar.
A potência do etanol encara a fatura da alavancagem

Imagina abrir o primeiro balanço depois de renegociar a dívida e ver o vermelho só engordar. Foi o que viveu a Raízen, a joint venture de Cosan e Shell que é potência em açúcar e etanol, ao fechar a safra 2025/26 com prejuízo de R$ 27,1 bilhões, mais de seis vezes o do ciclo anterior, sendo R$ 7,3 bilhões só no último trimestre. Antes de entrar em pânico com o tamanho do buraco, vale separar o que é caneta do que é caixa. Boa parte do rombo veio de R$ 22,5 bilhões em provisões sem efeito caixa e R$ 11,9 bilhões de baixas não recorrentes, fruto da faxina no portfólio. Tanto que o Ebitda reportado despencou 92%, para R$ 1,1 bilhão, enquanto o ajustado, que tira esses efeitos, ficou quase de pé em R$ 11,3 bilhões. A operação não virou pó, mas a fotografia contábil saiu bem feia. O problema é que nem tudo é maquiagem de balanço. A dívida líquida subiu para R$ 58,2 bilhões, quase 70% a mais, e a alavancagem saltou de 3,2 para 5,2 vezes o Ebitda ajustado. É o retrato de quem cresceu na base do empréstimo e foi pego na curva do juro alto. No campo, a moagem caiu 9,8% e a produção de etanol recuou quase 18%, então o caixa operacional também veio mais magro pra socorrer. Por ora, a empresa ganhou um respiro de 180 dias de suspensão dos juros, aquele fôlego pra arrumar a casa. A maior fabricante de bioenergia do país virou aula sobre o preço de crescer alavancado, e, logo depois do novo Plano Safra, acaba dando o tom do risco de crédito que ronda o setor inteiro. Quando o gigante tropeça na dívida, todo mundo na cadeia confere o próprio extrato.
A safra que vem já nasceu mais cara

O produtor ainda nem plantou e a conta da safra 2026/27 já chegou salgada. O Itaú BBA revisou as projeções e vê piora nas margens da agricultura no próximo ciclo, um coquetel de pressões que aparece antes de a semente entrar na terra, com os fosfatados em déficit e o clima incerto. E o adubo é o nó. As importações de fertilizante caíram, com a ureia mais barata de um lado e os fosfatados pressionados do outro, sinal de produtor jogando na defesa. Do lado bom, o banco ainda projeta a carteira de crédito ao agro 10% maior, dinheiro tem, o problema é o custo do que ele compra. E tem a novela dos insumos no Congresso. O Profert, programa de estímulo à produção de fertilizante, deve ser votado nos próximos dias no Senado, o país tentando no grito reduzir a dependência de adubo importado que corrói a margem toda safra. O recado pra quem vai plantar é direto, a margem de 26/27 vai se decidir menos na porteira e mais no preço do adubo, e esse preço, boa parte, vem de fora.