A empresa nova que a Bayer criou só pra brigar

Botar o problema num quarto separado da casa não faz ele sumir, mas ajuda a dormir melhor. Foi mais ou menos isso que a Bayer fez com o glifosato na quarta à noite.

A alemã anunciou que vai jogar toda a operação do Roundup nos Estados Unidos, produção, preço, venda e as brigas na Justiça, pra dentro de uma empresa novinha, a Ruveon. O mercado leu como blindagem e gostou. As ações subiram até 5,7% em Frankfurt na manhã seguinte, acumulando quase 40% no ano.

O timing não é coincidência. Uma semana antes, a Suprema Corte americana tinha dado à empresa a maior vitória nos processos que ligam o herbicida a casos de câncer, uma queda de braço que já dura mais de dez anos e custou mais de US$ 10 bilhões à companhia. Separar o glifosato num CNPJ próprio deixa mais fácil vender ou isolar esse abacaxi se a coisa apertar de novo.

E a recém-nascida já saiu de casa dando patada. No primeiro dia de vida, a Ruveon pediu às autoridades dos EUA uma investigação antidumping contra o glifosato chinês, alegando que a China vende subsidiado a um preço “que nenhum produtor não subsidiado consegue igualar”. Bem-vinda ao mundo, filha.

Só que os analistas de banco farejaram outra coisa no ar, a velha novela de uma cisão da divisão agrícola inteira, que a Bayer insiste em negar. Pro investidor, fica a dúvida, reorganização de contabilidade ou primeiro capítulo de um divórcio já anunciado?

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