A potência do etanol encara a fatura da alavancagem

Imagina abrir o primeiro balanço depois de renegociar a dívida e ver o vermelho só engordar. Foi o que viveu a Raízen, a joint venture de Cosan e Shell que é potência em açúcar e etanol, ao fechar a safra 2025/26 com prejuízo de R$ 27,1 bilhões, mais de seis vezes o do ciclo anterior, sendo R$ 7,3 bilhões só no último trimestre. Antes de entrar em pânico com o tamanho do buraco, vale separar o que é caneta do que é caixa. Boa parte do rombo veio de R$ 22,5 bilhões em provisões sem efeito caixa e R$ 11,9 bilhões de baixas não recorrentes, fruto da faxina no portfólio. Tanto que o Ebitda reportado despencou 92%, para R$ 1,1 bilhão, enquanto o ajustado, que tira esses efeitos, ficou quase de pé em R$ 11,3 bilhões. A operação não virou pó, mas a fotografia contábil saiu bem feia. O problema é que nem tudo é maquiagem de balanço. A dívida líquida subiu para R$ 58,2 bilhões, quase 70% a mais, e a alavancagem saltou de 3,2 para 5,2 vezes o Ebitda ajustado. É o retrato de quem cresceu na base do empréstimo e foi pego na curva do juro alto. No campo, a moagem caiu 9,8% e a produção de etanol recuou quase 18%, então o caixa operacional também veio mais magro pra socorrer. Por ora, a empresa ganhou um respiro de 180 dias de suspensão dos juros, aquele fôlego pra arrumar a casa. A maior fabricante de bioenergia do país virou aula sobre o preço de crescer alavancado, e, logo depois do novo Plano Safra, acaba dando o tom do risco de crédito que ronda o setor inteiro. Quando o gigante tropeça na dívida, todo mundo na cadeia confere o próprio extrato.
O El Niño resolveu torrar o café antes da hora

Se você acha que o seu cafezinho anda com gosto de luxo, senta que a bolsa concorda. O café disparou cerca de 15% a 16% em Nova York hoje, num daqueles movimentos que fazem o cafeicultor abrir o sorriso e o consumidor apertar o cinto. O motivo tem nome de novela climática: o El Niño, que voltou a rondar a lavoura e deixou o mercado com o dedo no gatilho. Acontece que parte dessa alta é movimento técnico, aquele em que o preço sobe mais pelo humor da bolsa do que por saca que sumiu de verdade. Café que dispara em dia de clima nervoso também sabe o caminho de volta quando a chuva resolve aparecer. Para quem tem café no pé, é dia de comemorar com moderação. Para quem só toma, fica a lição de sempre: quando o céu fecha lá na lavoura, quem manda no preço da sua xícara é a chuva que não caiu.
O adubo do Brasil depende do humor do mundo

Aqui vai um daqueles temas que não aparece na foto bonita da lavoura, mas manda no custo de tudo: fertilizante. Lá fora, Trump suspendeu as tarifas sobre o fertilizante do Marrocos para tentar segurar os custos no campo americano, um lembrete de que insumo virou peça de xadrez geopolítico, movida em Washington e sentida lá no meio de Mato Grosso. Aqui dentro, o problema é mais antigo e mais teimoso: mesmo com planos para reduzir a dependência, a produção nacional de fertilizante recuou, e o Brasil segue comprando lá fora a maior parte do que joga na terra. É uma vulnerabilidade que não dá manchete todo dia, mas aparece redondinha na planilha de custo toda vez que o mundo espirra. Porque depender do adubo dos outros é apostar num barco que não é o seu. Cada reviravolta de tarifa, cada guerra e cada quebra de safra lá fora chega ao produtor brasileiro em forma de conta mais salgada na hora de plantar, e, diferente do preço da soja, esse custo não sobe no telão da bolsa, ele chega quieto, direto na nota do fornecedor. O recado para quem vive da terra é incômodo, mas necessário: enquanto o adubo vier de fora, o custo da sua safra vai ser decidido por gente que nunca pisou na sua fazenda.