A dona do eucalipto agora quer mandar no seu papel higiênico

Você provavelmente nunca pensou na Suzano ao trocar o rolo de papel higiênico, mas isso está prestes a mudar. A maior fabricante de celulose do mundo, aquela que vive de eucalipto, decidiu que quer um pedaço do que vai parar no seu banheiro. A empresa concluiu a compra de 51% da joint venture que montou com a americana Kimberly-Clark, num negócio de US$ 1,3 bilhão, cerca de R$ 6,7 bilhões. Nasce a Arbex, dona de marcas de papel higiênico, toalha, guardanapo e lenço, com a Suzano no controle e Walter Schalka, ex-presidente da companhia, à frente do conselho. No pacote vem também uma dívida líquida de quase US$ 1 bilhão. É a maior aposta da Suzano fora da celulose, e nem todo mundo aplaude. Sair da matéria-prima, onde ela é gigante global, pra brigar na prateleira do supermercado, onde a margem é fina e a marca é rainha, é trocar um jogo que domina por outro que ainda vai ter que aprender. E a dívida que veio junto pesa num momento de juro alto. Mas a lógica tem lastro. Quem planta eucalipto e faz celulose passou anos vendo o valor ir embora rio abaixo, do tronco ao produto final. Comprar a fábrica que transforma a própria fibra em item de banheiro é encurtar essa distância e ficar com a parte mais gorda da conta. Se der certo, a árvore da Suzano vai render bem depois de virar papel.
A potência do etanol encara a fatura da alavancagem

Imagina abrir o primeiro balanço depois de renegociar a dívida e ver o vermelho só engordar. Foi o que viveu a Raízen, a joint venture de Cosan e Shell que é potência em açúcar e etanol, ao fechar a safra 2025/26 com prejuízo de R$ 27,1 bilhões, mais de seis vezes o do ciclo anterior, sendo R$ 7,3 bilhões só no último trimestre. Antes de entrar em pânico com o tamanho do buraco, vale separar o que é caneta do que é caixa. Boa parte do rombo veio de R$ 22,5 bilhões em provisões sem efeito caixa e R$ 11,9 bilhões de baixas não recorrentes, fruto da faxina no portfólio. Tanto que o Ebitda reportado despencou 92%, para R$ 1,1 bilhão, enquanto o ajustado, que tira esses efeitos, ficou quase de pé em R$ 11,3 bilhões. A operação não virou pó, mas a fotografia contábil saiu bem feia. O problema é que nem tudo é maquiagem de balanço. A dívida líquida subiu para R$ 58,2 bilhões, quase 70% a mais, e a alavancagem saltou de 3,2 para 5,2 vezes o Ebitda ajustado. É o retrato de quem cresceu na base do empréstimo e foi pego na curva do juro alto. No campo, a moagem caiu 9,8% e a produção de etanol recuou quase 18%, então o caixa operacional também veio mais magro pra socorrer. Por ora, a empresa ganhou um respiro de 180 dias de suspensão dos juros, aquele fôlego pra arrumar a casa. A maior fabricante de bioenergia do país virou aula sobre o preço de crescer alavancado, e, logo depois do novo Plano Safra, acaba dando o tom do risco de crédito que ronda o setor inteiro. Quando o gigante tropeça na dívida, todo mundo na cadeia confere o próprio extrato.