O gramado da Copa e o adubo que o Brasil não faz

Enquanto a bola rola lisinha no gramado da Copa, poucos reparam que aquele tapete verde é obra de agrônomo, não só de jardineiro. É o argumento de João Guilherme Sabino Ometto, da Academia Nacional de Agricultura, que puxa o fio do campo de futebol para uma dor bem conhecida da lavoura, o Brasil importa 85% dos fertilizantes minerais que consome. A conta assusta porque o mundo anda nervoso. A China restringiu a exportação de adubo, a Rússia travou o envio de enxofre para o Cazaquistão fabricar fosfato, e cada tranco lá fora vira preço aqui dentro. A saída que ele defende tem nome, o Profert, a Lei 699/2023, aprovada na Câmara em maio e parada no Senado, que criaria um fundo para a indústria nacional e obrigaria uma fatia de insumo brasileiro na mistura vendida no país. E tem caminho que já roda na fazenda, não no laboratório. As bactérias fixadoras de nitrogênio, por exemplo, derrubam a adubação nitrogenada da soja de 80 quilos por hectare para 20, e o rizóbio chega a dispensar de vez o nitrogênio químico na cultura. Some a torta de filtro e a vinhaça da cana, a cama de frango do aviário, e o quintal do próprio agro começa a responder parte da conta que hoje chega de navio. Vale lembrar que o texto é um artigo assinado, defesa de tese de quem torce pela indústria nacional, e que lei aprovada em plenário não vira fábrica de adubo da noite pro dia. Bioinsumo ajuda, não faz milagre sozinho. Mas o paralelo cola, o mesmo conhecimento que deixa o gramado impecável é o que pode secar a dependência lá fora. Pro Brasil, fica a lição do campo, a de futebol e a de soja, quem depende do adubo do vizinho joga sempre no contra-ataque.

A alemã que lê o solo na hora levantou R$ 106 milhões

Todo produtor conhece a dor de comprar adubo, é caro, vem de fora e sobe de preço quando o mundo espirra. A aposta de uma startup alemã é simples, se você não manda no preço do fertilizante, pelo menos pode mandar melhor em onde e quanto joga no chão. A Stenon, que faz análise de solo em tempo real, captou 18 milhões de euros, cerca de R$ 106 milhões, numa rodada Série B, e colocou o Brasil no centro do plano. O cheque veio de fundos europeus, com a holandesa Pymwymic à frente e um fundo alemão de clima, além da gestora do fundador da Salesforce. Aqui, a empresa mira sobretudo o manejo de nitrogênio, o insumo mais caro e estratégico da conta. O produto é uma maleta, o FarmLab, que mede a química do solo na hora com inteligência artificial, em vez de mandar amostra pro laboratório e esperar dias. A companhia diz que, lá fora, isso rendeu de 20% a 40% de economia de adubo nitrogenado e de 2% a 8% a mais de produtividade. O pé atrás é o de sempre com promessa de agtech, número de folheto não é número de fazenda, e a Stenon ainda atende mais o médio e o grande, correndo atrás de parceiro pra chegar ao pequeno. Mas o timing explica a fila de investidor. Com fertilizante importado caro e incerto, cada quilo de nitrogênio bem colocado vira margem. Se a conta do adubo é a que mais pesa na lavoura, quem souber cortar o desperdício sai na frente, e é nesse desperdício que a alemã aposta as fichas.

O adubo do Brasil depende do humor do mundo

Aqui vai um daqueles temas que não aparece na foto bonita da lavoura, mas manda no custo de tudo: fertilizante. Lá fora, Trump suspendeu as tarifas sobre o fertilizante do Marrocos para tentar segurar os custos no campo americano, um lembrete de que insumo virou peça de xadrez geopolítico, movida em Washington e sentida lá no meio de Mato Grosso. Aqui dentro, o problema é mais antigo e mais teimoso: mesmo com planos para reduzir a dependência, a produção nacional de fertilizante recuou, e o Brasil segue comprando lá fora a maior parte do que joga na terra. É uma vulnerabilidade que não dá manchete todo dia, mas aparece redondinha na planilha de custo toda vez que o mundo espirra. Porque depender do adubo dos outros é apostar num barco que não é o seu. Cada reviravolta de tarifa, cada guerra e cada quebra de safra lá fora chega ao produtor brasileiro em forma de conta mais salgada na hora de plantar, e, diferente do preço da soja, esse custo não sobe no telão da bolsa, ele chega quieto, direto na nota do fornecedor. O recado para quem vive da terra é incômodo, mas necessário: enquanto o adubo vier de fora, o custo da sua safra vai ser decidido por gente que nunca pisou na sua fazenda.

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